sábado, 1 de fevereiro de 2014

[Filme] Dallas Buyers Club (2013)


Matthew McConaughey nem sempre teve a crítica (e o público) do seu lado, e a verdade é que nunca fez muito para contrariar isso. Assinava papéis em filmes de segunda ou terceira linha (estou a ser simpático?) e pouco mais se via dele. Agora, numa espécie de contra-corrente, Matthew tem invertido o rumo à sua carreira e 2013 (embora a inversão de marcha venha já desde 2011) parece ter confirmado uma nova tendência na vida do rapaz de Texas. A entrada num dos filmes do ano (The Wolf of Wall Street) e o papel principal em Dallas Buyers Club são exemplos de que McConaughey deixou de brincar às comédias românticas e passou a querer afirmar-se como um dos principais actores da actualidade (o Globo de Ouro e a nomeação para um Oscar falam por si). Vamos então ao filme.

Dallas Buyers Club, traz Matthew McConaughey como nunca o vimos antes, com uma perda de peso que faz lembrar o que Christian Bale passou em The Machinist, de 2004.
A acentuada mudança corporal é necessária para dar um maior realismo ao filme, pois Ron Woodroof (Matthew McConaughey) é um doente de SIDA que leva uma vida boémia, com explosivas misturas de álcool, sexo e drogas. Quando descobre a sua doença (conhecida na altura, em '85, como a doença dos faggots) o seu estilo de vida começa a pouco e pouco a mudar e a transformação da personagem é acentuada. O cowboy homofóbico passa a conviver regularmente com homossexuais, sendo que Rayon, um transsexual (protagonizado/a por Jared Leto), acaba por se tornar no grande parceiro de vida e de negócios de Ron.
Ron Woodroof, insatisfeito com os medicamentos receitados pelos médicos, vai ele mesmo à procura de soluções, e desde o México à Ásia luta por medicamentos que realmente ajudem os pacientes de SIDA, ao invés de apenas destruirem o organismo dos doentes. Começa assim a batalha entre Ron, que funda o clube que dá nome ao filme, e a FDA, que não quer permitir que Woodroof ganhe dinheiro com medicação alternativa à dada nos hospitais.


A grande prestação da dupla central - Matthew e Leto - leva o filme às costas. Entre a luta contra o sistema e a relação entre os dois está o ponto-chave do filme. É difícil apontar defeitos quando nos contam uma história que realmente existiu (tirando algumas partes fictícias) e por isso é complicado dizer que x coisa podia ter sido contada de outra forma, mas a verdade é que se nota um quê de americanice escusada, mesmo quando o filme e a sua história vão precisamente focar a luta de um homem contra o sistema americano que sobrepõe os ganhos económicos à saúde das pessoas do seu país.

8/10 
(O mais normal é pelo menos um Oscar ir parar por aqui, entre Matthew e Leto, pelo menos um dos dois deve ser premiado, sendo que nos Globos de Ouro deste ano ambos saíram vencedores.)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

[Filme] Filth (2013)



"1. Sociopata – Alguém incapaz de se enquadrar nas normas da sociedade, tem habilidade para enganar pessoas, é extremamente egoísta, não se envergonha dos seus actos, não sente necessidade de melhorar porque não acredita estar errado; não sente culpa nem se arrepende dos seus actos, é geralmente maldoso e teatraliza sentimentos para impressionar os outros."

Sim sim, tirei a ideia do Pulp Fiction. Mas aos cinco minutos de filme, é nisto que revemos o detective Bruce Robertson.


Jon S. Baird não é propriamente um novato no cinema, tendo já produzido vários filmes – dos quais destaco Green Street Hooligans – e adaptado e realizado dois – Cass em 2008 e Filth de que falamos hoje. Um tema presente nos seus filmes é claramente a violência e a linguagem forte, longe de ser politicamente correcta.
Filth é, em linhas gerais, uma montanha russa entre “porrada”, “palavrões”, sexo, álcool e muita droga, aliada a uma vertente humana que começa por ser subtil mas que vai ganhando maior dimensão. A agressividade constante e o desempenho de peso de James McAvoy - que está longe de ser um actor inexperiente, mas que se destaca certamente neste filme – são o que nos deixa completamente agarrados ao ecrã do princípio ao fim.

A narrativa centra-se no sargento Bruce Robertson (James McAvoy), um detective corrupto, manipulador, intriguista e interesseiro que passa os seus dias a beber, consumir drogas e a ter sexo com prostitutas ou mesmo com as mulheres dos seus supostos melhores amigos. O seu objectivo é manipular o seu caminho até ao cargo de inspector (promoção que o seu chefe prometeu atribuir em breve a um dos sargentos) tanto para ganho pessoal como para impressionar a sua mulher Carole. Para isso usa o que chama “os jogos”, esquemas desonestos que dirige aos seus colegas, alguns deles supostos amigos de Bruce, para que estes não lhe passem à frente na corrida a inspector (dos quais destaco Jamie Bell (Ray Lennox) e Eddie Marsan (Bladesey) pelo seu excelente desempenho).


Conseguimos perceber desde o início que algo não está bem com o detective e que este sofre de problemas mentais, tendo constantes alucinações ao longo da narrativa – que só vão piorando, acompanhando a deterioração do mesmo. Percebemos ainda que este terá sofrido uma experiência traumática, pelas suas visitas ao Dr. Rossi (Jim Broadbent) que também faz aqui um papelão apresentando um novo nível de excentricidade ao filme. No meio dos muitos golpes baixos do detective, de uma aparente apatia e de muitas características de sociopata, tudo o que conseguimos fazer é rir descontroladamente. Mas esse mood não se mantém.

Tanto pela narrativa como pela performance de McAvoy (que é sem dúvida responsável pela forma crua e unapologetic como a acção chega até nós), somos obrigados a sentir todo o tipo de emoções – alegria, tristeza, desconforto, adrenalina, you name it. Não quero contar mais sobre o filme porque acho que isso ia estragar a experiência, mas digo isto: está cheio de surpresas, nunca se torna aborrecido e deixa-nos sempre a querer mais. Não é de todo uma experiência que tenhamos todos os dias, com qualquer filme que apanhemos por aí – Filth traz algo de novo e desperta em nós algo de que não estamos à espera (ou pelo menos eu não estava, quando comecei a ver o filme). Até os créditos finais estão engraçados.

Estou farta dos rios de filmes politicamente correctos e profundos, que supostamente conseguem extrair de nós qualquer tipo de conclusão filosófica que mudará a nossa vida para sempre, assim como estou farta dos – ainda maiores – rios de filmes em que há a tal “porrada” para entretenimento, desprovida de qualquer tipo de inteligência ou de uma vertente humana. Filth é o exemplo perfeito de que não tem que haver um compromisso entre uma coisa ou outra, é bem possível termos as duas. É pena que o filme não esteja a ter grande visibilidade e que a distribuição do mesmo não tenha sido a 100% (apesar de tudo, é uma produção Britânica e falta-lhe o impulso de Hollywood), no entanto espero que a sua qualidade seja suficiente para o fazer chegar ao grande número de pessoas que merece. Recomendo.


 8/10



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

[Filme] The King of Comedy (1983)


Mais de meia década depois do bem sucedido “Taxi Driver” ter juntado Martin Scorsese e Robert de Niro numa das suas mais marcantes personagens, surge “The King of Comedy”, um filme que em pouco ou nada é semelhante à longa metragem de 1976 mas que mantém algumas linhas habituais do realizador norte-americano.
Em “The King of comedy”, Martin Scorsese volta a usar a crítica à sociedade, desta feita pela mão de uma personagem obcecada pela fama, na sua luta por um objetivo: ser o Rei da Comédia.

Rupert Pupkin (Robert de Niro), é um aspirante a comediante (com uma auto-estima bastante elevada, diga-se) que tenta por todos os caminhos possíveis atingir a fama do seu ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis). Ao ver constantemente negada a hipótese de falar com Jerry acerca de uma ajuda para entrar no ramo, Rupert tenta romper no stand-up comedy por outros meios, um pouco mais agressivos. Para isso, conta com a ajuda de Masha (Sandra Bernhard), uma fã louca e excessivamente obcecada por Jerry Langford. Dois loucos, ele com o sonho de ter o seu próprio show na televisão nacional, e ela com o único desejo de ter a seu lado o seu ídolo, Jerry


Isto pode parecer que resulta num filme engraçado, e o título até indicar para isso mesmo, mas esta é uma longa-metragem sobre comédia que não faz (nem pretende fazer) rir. É um filme que nos deixa impacientes, por vezes com uma certa “raiva” derivada do facto da personagem principal ser constantemente rejeitada mas não aceitar isso. Uma atitude tão persistente que acaba por parecer masoquista. Para quem já assistiu a outros filmes de Martin Scorsese, é normal que sinta estranho o ritmo monótono e quase aborrecido do filme e falta de uma "explosão" de acontecimentos. Na verdade, “The King of Comedy” não tem a tal explosão que tem por exemplo “Taxi Driver” a certo ponto ou o ritmo alucinante do recente “The Wolf of Wall Street” ou até o mistério que envolve “Shutter Island”.
Quem vê hoje este filme de Scorsese, vê em certos momentos o seu cunho pessoal (na tal crítica à obsessão) mas na maior parte do filme isso passa até despercebido. Como já devem ter percebido, “The King of Comedy” não é propriamente agradável de se ver, chega a tornar-se aborrecido e angustiante em determinados momentos, mas é uma obra interessante que retrata um universo complicado e não menos difícil de entrar e permanecer que o cinema ou a música.


Better to be king for a night than schmuck for a lifetime” é a tagline deixada pelo protagonista no fim do filme, que entrega ao personagem uma certa razão e nos faz questionar se faz falta a cada um de nós uma injecção de rebeldia e desvergonha (das que Rupert tinha em demasia).
O que vale mais, arriscar tudo por 5 minutos no topo ou manter uma vida calma, sem grandes sobressaltos e erros, mas também, sem o prazer/sonho de uma vida?


7/10